Domingo, 17 de Janeiro de 2010

No tempo em que nos jornais havia espaço para o jazz (1)


Rasteiras e Desarmes (1)

Cinco discos, três verdadeiros desarmes e dois tiros certeiros, num campeonato-jazz cada vez mais competitivo e de resultados sempre imprevisíveis.  É, de facto, uma tarefa falível e, no fundo, desinteressante a simples tentativa de arrumar em prateleiras previamente etiquetadas o que hoje  [2000]  ocorre no jazz, no plano criativo.

 

 

Que dizer, por exemplo, do rejuvenescedor disco com que o veterano Roswell Rudd agora se saiu na Knitting Factory?  Senhor de uma carreira a todos os títulos exemplar  – na qual, para encurtar razões, se poderá dizer que «queimou» algumas etapas saltando directamente do dixieland para o free, sem passar pela tarimba do bebopRudd foi não raras vezes esquecido pela indústria discográfica, manifestou-se estudioso comprometido  (mas de espírito livre e solto)  das músicas que o alertaram ao longo dos anos e sempre se revelou decisivo e influente nas pesquisas instrumentais dos mais destacados e inovadores trombonistas modernos.

 

Regressado episodicamente aos estúdios com um novo álbum intitulado Broad Strokes, ei-lo que nele evoca mestres como Herbie Nichols, Duke Ellington ou Thelonius Monk mas também recupera trajectos antigos, como essa especial atenção pelos blues ou por outros espécimes mais ou menos heterodoxos e até marginais da música popular.

Num terreno jazzisticamente bem marcado, Rudd dirige fascinantes colectivos instrumentais ou escreve fabulosos arranjos para temas como Change of Season, a dupla All Too Soon / Way Low ou Coming on the Hudson;  mas muda de temática para os inesperados Almost Blue (Elvis Costello)  ou Theme for Babe (pedido emprestado a Saint-Saëns e tocado na companhia do grupo underground Sonic Youth!)  para resolver, ainda, enveredar por surreais memórias em God Had a Girlfriend ou Stokey.

Enfim, nesta ecléctica viagem pelas paixões musicais de Roswell Rudd, uma palavra é ainda devida para sublinhar as episódicas mas soberanas presenças de Steve Lacy e Sheila Jordan, sem ficar indiferente às qualidades de Steve Swell, Josh Roseman, John Betsch ou Ron Finck.  Um disco de pegar ou largar!

 

Não menos desarmante  (mas por motivos totalmente diversos)  é o mais recente [2000] disco de Brad Mehldau.  Alternando peças em trio com peças em solo absoluto, Places revela-se uma obra contraditória e problemática numa fase crucial da carreira do notável pianista.

Parecendo-me irrelevante sublinhar a relativa solidão que experimentei em ocasiões anteriores ao procurar analisar com a possível objectividade a transcendência arrebatadora de alguns dos melhores opus de Mehldau ou a derrotante desilusão do seu primeiro disco a solo  –  julgo necessário avançar, desta vez, algumas claras reservas que não excluem uma continuada admiração pelas suas portentosas qualidades de invenção e técnica instrumental.

 

Situam-se essas reticências no plano puramente conceptual.  Não tanto relativas à superficialidade que representa dar títulos evocativos de lugares e viagens a originais do pianista que  (nesse preciso sentido, e ouvidos com ouvidos de ouvir)  se não distinguem, no fundamental, uns dos outros;   mas, sobretudo, pela reincidência, até à exaustão, nos mesmos processos de composição temática cujo modelo radica, lá mais no passado  (já em 96!),  nas tão fascinantes deambulações harmónicas dessa espantosa obra-prima que foi Lament For Linus.

Chamar-lhe-ão, alguns, com razão, a exuberância de uma estética própria.  Mais céptico e exigente em relação às minhas próprias paixões, eu arriscaria tratar-se, ao mesmo tempo, da manifestação de alguns sintomas de crise.

 

Por isso, às indefinições de Brad Mehldau, prefiro neste ensejo a singela confirmação de Joey Calderazzo, um pianista directo e exuberante, cada vez mais notado pela sua insinuante presença, primeiro no grupo de Michael Brecker, agora no quarteto de Branford Marsalis.

 

E, para tal, apenas algumas linhas julgo serem suficientes no sentido de alertar o leitor para esta sua estreia como líder, na Columbia, marcada por uma consistência pianística  (mas também composicional)  não desprezível e, ainda, pela especial apropriação e integração, num estilo cada vez mais definido, das influências de Wynton, Jarrett, Hancock ou Kirkland. Quanto a John Patitucci (contrabaixo)  e Jeff Watts (bateria),  é «impossível» tocar mal com eles por perto!

Por falar em Branford Marsalis, aí o temos de novo, em força, agora com Contemporary Jazz, na continuação natural de Requiem, um dos melhores discos do ano passado.  [1999]

 

Fazendo jus à cada vez maior maturidade revelada na obra gravada e nos concertos ao vivo, Branford evidencia neste álbum uma polivalência estética impressionante, uma técnica instrumental a toda a prova e, sobretudo, a consciência de que os desafios da criatividade não são favas contadas!

 

Nesse sentido, a constante utilização de impressionantes cambiantes polirítmicas acaba por marcar todo o disco, logo a partir de In The Crease, naquela que é uma subversão da aparente «normalidade» linear do tradicional esquema tema-variações-tema.  Da mesma maneira que as transfigurações por que passa Cheek to Cheek, as calorosas referências a Ben Webster num escondido blues (Sleepy Hollow)  que se segue à última faixa ou a comovente homenagem a Kenny Kirkland numa nova versão de Requiem revelam uma versatilidade expressiva cada vez mais firme.

Mas é na transcendência de Elysium ou Tain Mutiny – duas verdadeiras peças de resistência de todo o álbum –  que Branford e o seu fabuloso grupo acabam por derrotar qualquer tentativa de conotação com um jazz datado ou falho de inovação.  Um disco fundamental!

 

Como também o é Iffy, essa verdadeira rasteira pregada por Chris Speed àqueles que apenas vêem em certos pálidos representantes da downtown nova-iorquina uma série de curiosos e esotéricos excêntricos, porventura talentosos e muito dados à partitura escrita, mas lá no fundo alheios às emoções e pureza do jazz!

 

Ora ouça-se o impressionante e arrasador balanço com que o disco começa  (A Little Odd),  a energia que marca Graphic Ridiculous ou o calor emotivo de FMU e a linhagem bop de CooCoo (alusão a Koko?)  –  e logo se concluirá que, por entre derivações em direcção a uma espécie de drum’ n ’bass de influência balcânica e outras transgressões mais ou menos klezmer, Chris Speed se revela acima de tudo uma das mais maduras certezas do saxofone e clarinete modernos, a par da impressionante qualidade e novidade expressas por Jamie Saft no órgão e por Ben Perowsky na bateria.  Um disco de mão cheia!

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(1) (in DNMais, suplemento do Diário de Notícias, 16.09.2000)


Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 10:49
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